quinta-feira, 13 de abril de 2017

O Domínio da “RACIONALIDADE ECONÔMICA”




A Economia como Ciência

A economia é uma ciência que procura trabalhar a escassez. Mas, pode significar, também, uma regra de conduta de uma casa, e é este o sentido original da palavra economia: do grego oikos (casa) e nomos (regra).  Etimologicamente referia-se, pois, à administração doméstica.
Com o fim de dar-lhe sua conotação atual acrescentou-se à palavra economia o adjetivo política[1]. Dessa forma deixa-se claro que a economia política tem como objeto específico a sociedade e não o indivíduo ou a unidade familiar. A ciência econômica, também, estendeu o seu domínio à arte de bem gerir os bens.
Eis aí o grande dilema que se coloca à frente das questões econômicas. De uma ação de responsabilidade individual ou de uma unidade familiar, as questões passaram a ser de âmbito coletivo, difuso e impessoal. Assim, o conceito de “economia” passou a servir às mais diversas situações, com o intuito de designar ou explicar a realidade econômica de uma sociedade.
Além disso, o estudo das atividades econômicas obriga-nos a um rápido olhar por toda a ciência econômica, pois essas atividades representam justamente a articulação de todos os elementos necessários à criação de valor, para a satisfação, não somente das nossas necessidades, mas também, dos anseios de progresso da coletividade.
Como ciência, a economia pode ser classificada em três grandes grupos, a saber: ciência das riquezas; ciência social das relações de trocas ou do intercâmbio; e ciência da escolha racional, em face da raridade relativa dos bens econômicos. Em razão do predomínio desta última concepção, define-se a economia, em geral, como a “ciência que estuda as formas de comportamento humano resultantes da relação existente entre as ilimitadas necessidades a satisfazer e os recursos que, embora escassos, se prestam a usos alternativos”. 
A atividade econômica gira em torno do fato central de que as necessidades humanas superam largamente os bens disponíveis para satisfazê-las. Surge, portanto, a conveniência da intervenção econômica na escolha racional das necessidades prioritárias e dos meios capazes de satisfazê-las.
Nesse sentindo, o homem, como ser social, tem necessitado resolver numerosos problemas relacionados com a administração dos recursos escassos que lhe são disponíveis, seja por um presente da natureza, seja pela sua própria atividade produtiva. Cada uma dessas formas de organização econômica constitui um sistema. Desta forma, em sentido amplo, na linha de sistemas econômicos teóricos, pode-se classificar a economia em dois segmentos distintos, a saber:
a)      Economia de mercado: economia na qual o mercado determina inteiramente a atividade econômica pela livre confrontação da demanda e da oferta. Está baseada na propriedade privada e na liberdade de iniciativa e de contratos dos agentes econômicos. As decisões econômicas são tomadas com base na livre iniciativa, manifestada nos mercados de fatores, produtos, serviços e ativos.
b)      Economia planificada: economia na qual o conjunto dos mecanismos econômicos é autoritariamente regulado por um plano geral e centralizado.
O presente estudo procura situar-se dentro do pensamento econômico majoritário no ocidente, caracterizado pela economia de mercado, eis que se transformou no sistema dominante hoje em dia, especialmente depois do fracasso da economia planificada (comunismo).
A economia de mercado pressupõe um modo de organizar a atividade econômica. Primeiramente, não pode prescindir da propriedade privada de bens e fatores, que inclui os meios de produção. Em um segundo, exige a liberdade de iniciativa dos agentes econômicos e, finalmente, exige que a coordenação das atividades esteja nas mãos de instituições e mecanismos impessoais. Assim, é o mercado que canaliza as iniciativas dos sujeitos na busca de uma situação que seja satisfatória para todos.
Hoje, o sistema econômico é, sem dúvida, a maior “instituição” da sociedade civil. “Ele une mais pessoas globalmente do que qualquer outro tipo de organização”.  A consequência é que a saúde moral de uma sociedade depende em alto grau do caráter moral dos negócios econômicos e dos líderes que os conduzem.
Para se chegar no atual estágio, a sociedade humana experimentou mudanças profundas na base de sua economia e na sua estrutura social, que podem ser separadas em três etapas distintas, a seguir descritas:
a)      Na primeira grande etapa do desenvolvimento econômico, os homens passam de uma economia tribal de caça e coleta para uma economia agrícola. Esta transição começou há aproximadamente 8.000 anos e hoje está quase totalmente completa em todo mundo, exceto em algumas poucas sociedades primitivas em áreas como, por exemplo: Bacia Amazônica e Nova Guiné. 
b)      Na segunda etapa, os homens passam da economia agrícola para a economia industrial. Esta etapa teve início na Grã-Bretanha há aproximadamente 250 anos e difundiu-se pela Europa Ocidental, América do Norte e Japão no século XIX. Desde a 2ª Guerra Mundial, a industrialização tem se difundido de maneira extensiva pela Ásia e partes da América Latina.
c)      A terceira etapa da história econômica e social dos homens é a atual onde o desenvolvimento econômico está baseado no conhecimento. Este processo começou no último terço do século XX, preponderadamente nos países mais industrializados e desenvolvidos e hoje está espalhado por todo o planeta. Suas variáveis críticas e fundamentais são a informação e o conhecimento.
A partir destas colocações, verifica-se que a economia de mercado coexiste com diversas formas de organização -- política, cultural, militar, religiosa. Assim, muitas de suas características se fundem com a própria sociedade na qual está inserida e o homem, simplesmente, não consegue antever de forma clara qual o objetivo de um sistema econômico. Ele chega a acreditar, inclusive, que o fim último das ações econômicas se confunde com o seu próprio fim. 
Neste particular, podemos afirmar que a economia não é e não pode ser o fim da vida humana. Ela é sim, um instrumento fundamental para possibilitar o crescimento material e o bem-estar de um determinado grupo de pessoas com base naquilo que já existe. Quanto à capacidade de o homem criar algo do nada, vale mencionar o pensamento do filósofo inglês Chesterton [2] (1874-1936):
Deus é aquele que pode produzir algo a partir do nada. O homem é aquele que pode produzir algo a partir de qualquer coisa. Em outras palavras. Enquanto a alegria de Deus pode estar na criação ilimitada, a alegria especial do homem está na criação limitada, na combinação entre criação e limites (CHESTERTON, 2013, p. 54).
Assim, o sistema econômico não é dotado de capacidade para ser um fim em si mesmo, mas apenas um pressuposto material do desenvolvimento integral do ser humano e da natureza.  O próprio papel da atividade econômica é propiciar o desenvolvimento do indivíduo. O trabalho trabalha para as pessoas. 



[1] Do grego politikos, que significa “cívico”. O termo politikos, por sua vez, se originou a partir da palavra polites, que quer dizer “cidadão”, que se originou de polis, traduzido por “cidade”. Numa sociedade como a grega, em que a vida pública interessava a todos os cidadãos, os politikos eram aqueles que se dedicavam ao governo da polis ("a cidade” ou “o Estado"), colocando o bem comum acima de seus interesses individuais.

[2] Gilbert Keith Chesterton, conhecido como G. K. Chesterton foi um escritor, poeta, narrador, ensaísta, jornalista, historiador, biógrafo, teólogo, filósofo, desenhista e conferencista britânico. Igualmente trilhou pelo campo da economia. Nasceu na Inglaterra (Londres) em 1874 e faleceu em 1936.





terça-feira, 21 de março de 2017

Parte I - A Fé e a Razão


                           




                 
            O que um economista e sociólogo de formação poderia sugerir a um teólogo para facilitar o diálogo fé-economia?  Há, na história da humanidade, momentos de especial significado, quando são tomadas decisões que vão marcar e condicionar a evolução futura e ocorrem fatos destinados a repercutir intensamente e duradouramente, na vida das pessoas. São pontos de inflexão, a indicar mudanças essenciais que, uma vez consumadas, permitirão afirmar-se que a história não será mais a mesma.
            Hoje vivemos um momento particular, quer do ponto de vista da fé, quer do ponto de vista da razão. No campo econômico podem-se observar mudanças profundas no que toca à política e às transformações que se operam no tecido social, com significativos reflexos no âmbito da moral e da fé católica. Vive o mundo um período de grandes mudanças, com reivindicações crescentes da sociedade, em seus vários segmentos, para a conformação de um mundo de paz, mais justo e solidário socialmente.         Por tudo isso, este trabalho se faz tanto mais oportuno quanto é patente a necessidade de compreender a característica de cada época da história do pensamento econômico e seu impacto na vivência da moral e da fé católica.  Coloca-se para nós a seguinte indagação: Qual a finalidade de um sistema econômico? O homem dispõe dos recursos da natureza e de suas próprias forças – tanto isoladamente como, sobretudo, em colaboração com os outros homens – para alcançar seus fins.
            Mas, sabe-se que os recursos disponíveis – terra (recursos naturais), trabalho, capital, tecnologia, informação, tempo – são escassos, e para enfrentar este problema é necessária uma atividade racional (economia) de administração desses recursos, que auxilie o ser humano na obtenção de seus objetivos.  Portanto, é correto ou não afirmar que o fim último de um sistema econômico é o fim mesmo da própria humanidade? No particular, acreditamos que tanto a racionalidade econômica quanto a doutrina católica irão nos ajudar a responder esta fundamental indagação. O próprio envolvimento da Igreja, como perita em humanidade[1], assumiu nos últimos dois séculos uma nova feição exigente, conciliadora e mais presente diante da dinâmica da economia. Isso exigiu um grande esforço do Magistério da Igreja Católica na elaboração de documentos, traduzidos em exortações e cartas encíclicas, que serviram para formar uma doutrina específica no campo social, da qual cuidaremos de analisar neste trabalho.
Outro aspecto importante e que vamos reportar neste trabalho é a proximidade entre a economia e o poder. Os governos instituídos tiveram o pensamento econômico vigente sempre próximo de sua tutela. Aconteceu na Inglaterra da revolução industrial, principal potência econômica dos séculos XVII e XVIII, onde, não por coincidência, floresceu a economia clássica.  Não é à toa, também, que a Rússia, na implementação da revolução do proletariado, toma para si os pensamentos socialistas de Karl Heinrich Marx (1818-1883) [2] para contrapor ao liberalismo dos ingleses Adam Smith (1723-1790), David Ricardo (1772-1823) e John Stuart Mill (1806-1873).
     Desta forma, buscaremos fazer uma exposição sistemática e cronológica, que se inicia com o estudo do pensamento econômico da antiguidade e da Idade Média, passando pelas correntes Mercantilistas da Renascença, pela tradição liberal-individualista do Século XVII e pelas reações do socialismo desenvolvidas no século XIX, até chegar às manifestações mais recentes, representadas pelos pressupostos doutrinários do intervencionismo, cujo expoente, nas economias ocidentais, foi John Maynard Keynes (1883-1946).
       Na sequência iremos discorrer sobre o enfretamento das graves distorções no mercado econômico utilizando dos ensinamentos deixados pela pessoa e missão de Jesus Cristo e buscaremos, ainda, unir a narração dos acontecimentos à análise positiva do comportamento cristão nas diversas épocas focalizadas. Isto possibilita demonstrar a interdependência existente entre o comportamento cristão e a superação dos principais problemas socioeconômicos da história. Merece especial destaque no presente trabalho a atuação do Magistério da Igreja que, a partir da publicação da Carta Encíclica Rerum Novarun -- a chamada “Carta Magna do Operariado” – resgatou a primazia da Igreja como verdadeira perita em humanidade.
            Neste particular, levou-se em consideração o contexto histórico de cada momento em que foram elaborados os documentos da Igreja, ao mesmo tempo em que se confrontou o conjunto das idéias ali defendidas com a realidade atual da sociedade, para mostrar a vitalidade com que a Igreja Católica atuou em uma parcela concreta de entraves sociais ao longo desses dois últimos séculos. Essa vitalidade manifesta-se em uma incansável atitude de busca em que momentos de luz mesclam-se a momentos de escuridão e de dúvida, como descrevemos neste trabalho.
            Por isso, não se pretende ficar apenas no nível do exame e discussão de doutrinas[3].  As pesquisas literárias e as análises aqui efetuadas buscam revelar a realidade triste ou alegre da vida que palpita sob a reflexão e as formulações doutrinais econômicas e católicas.  Disso, resulta um panorama ampliado onde se pode observar a forma mais pastoral de entender o papel da hierarquia da Igreja Católica e que a sua dimensão exclusivamente docente passa a integrar uma função mais extensa de animação do próprio povo de Deus.
    A metodologia empregada, qual seja, a da pesquisa teórica, permite que a análise dos contrastes entre os princípios da fé católica e as diversas correntes do pensamento econômico reforce o significado e a importância do testemunho pessoal do católico no sentido de conduzir ações em perfeita aderência ao “ser imagem e semelhança de Deus” e de demonstrar que “não há oposição entre o mundo que devemos construir e Deus que devemos amar” (BOFF, 1998, p.43). Verificamos que é plenamente exequível interagir com a realidade social e modificá-la positivamente com a adoção de atitudes cristãs, da qual se nutre a própria tradição eclesial. O Vaticano II tem, igualmente, um papel decisivo no presente estudo, sobretudo para a interpretação de todo o processo dinâmico da nova atitude oficial da Igreja perante o homem moderno.
            Cabe aqui um registro: não pretendo apresentar um elenco completo dos documentos e, menos ainda, uma análise exaustiva de seu conteúdo e ambiente histórico em que se situam. A minha intenção é mais modesta: oferecer um esboço da evolução socioeconômica a partir do exame dos principais documentos do Magistério petrino e subsidiar a todos os interessados em conhecer melhor o firme testemunho de amor e dedicação da Igreja pela humanidade, conforme o alerta de Jesus Cristo, seu amado fundador:
Que o injusto cometa ainda a injustiça e o sujo continue a sujar-se; que o justo pratique ainda a justiça e que o santo continue a santificar-se. Eis que eu venho em breve, e trago comigo o salário para retribuir a cada um conforme o seu trabalho. Eu sou o Alfa e Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. Felizes os que lavam suas vestes para terem poder sobre a árvore da Vida e para entrarem na Cidade pelas portas. Ficarão de fora os cães, os mágicos, os impudicos, os homicidas, os idólatras e todos os que amam ou praticam a mentira (Ap 22,11-15).






[1] A Igreja, “perita em humanidade”, é uma nomenclatura que já se tornou um patrimônio da linguagem eclesial e eclesiástica, e a sua fonte é a Carta Encíclica do Papa Paulo VI – Populorum Progressio (sobre o Desenvolvimento dos Povos de 26.03.67, nº. 13) e repetida incontáveis vezes em outros documentos do Magistério e quer significar, em função da sua missão, todo o empenho de se por à serviço de cada homem e do mundo inteiro (JOÃO PAULO II, VS, 2006, n. 3, p 8).
[2] Filósofo alemão do século XIX.
[3] Uma doutrina econômica constitui, a um só tempo, um projeto de organização econômica de dada sociedade e uma interpretação da atividade econômica de dada época. A ciência visa à explicação dos fenômenos econômicos. A doutrina contém os elementos da política econômica escolhida para realizar a organização desejada.


A Racionalidade Econômica no Contexto da Fé Católica


“Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem e onde os ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça, nem o caruncho corroem e onde os ladrões não arrombam nem roubam; pois onde está o teu tesouro aí estará também teu coração” (Mt  6,19-21).
Jesus Cristo


Muitos cientistas sociais, inclusive os economistas, simplesmente desprezam ou até mesmo desconhecem a importância da teologia na formação do pensamento econômico e na avaliação de ações que visam a criação de um bem-estar social baseado no humanismo integral e solidário.
Este mesmo problema ocorre em relação ao teólogo que desconhece totalmente ou em parte o modus operandi da economia de mercado e somente lhe atribui comportamentos especulativos e manipulativos, semelhantes a uma sala de jogos de azar.
Desta forma, estarei apresentando nas próximas publicações (pretendo fazer tudo este ano) o resultado de um amplo e profundo levantamento por mim realizado de postulados teóricos, históricos e práticos da ciência econômica e da Doutrina Social da Igreja (DSI) para facilitar e possibilitar a aproximação entre a racionalidade econômica e os valores e critérios morais presentes na fé católica, que devem nortear as atividades econômicas para favorecer um permanente e duradouro ambiente de justiça e paz na sociedade humana.
Gostaria de contar com sua paciência pois eu e você, discípulos e missionários de Jesus Cristo,  teremos uma longa jornada para cumprir o mandato que o Senhor nos deu: Ide e evangelizai.
Quem tem ouvidos que ouça !!

Obrigado.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Catecismo da Igreja Católica (uma síntese)





Profissão de Fé, A Celebração do Mistério Cristão, A vida em Cristo e a Oração Cristã.

  

            Presente a inegável importância do Catecismo da Igreja Católica para todos os fiéis, sobretudo por ser norma segura para a transmissão da doutrina da Igreja Católica, buscaremos desenvolver, neste trabalho, uma análise objetiva e destacar as principais idéias acerca dos temas relacionados às quatro partes em que se divide o mencionado documento, a saber: à profissão de fé, celebração do mistério cristão, a vida em cristo e a oração cristã.
            A elaboração do Catecismo da Igreja Católica foi concluída com a aprovação pontifícia em 25 de junho de 1992 e foi promulgado pela constituição apostólica Fidei Depositum, de João Paulo II, datada de 11.10.1992. Para uma visão geral da forma com que o Catecismo está estruturado vale assinalar que cada uma de suas partes está articulada em duas seções: a primeira apresenta os fundamentos do tema; na segunda, cada um dos temas é abordado separadamente. Assim, a primeira seção de cada parte trata dos conteúdos teológicos fundamentais da Doutrina (Parte I), os fundamentos da Liturgia (Parte II), os fundamentos da Moral (Parte III) e a doutrina geral sobre a Oração (Parte IV). A segunda seção trata respectivamente dos doze artigos da fé, dos sete sacramentos, dos dez mandamentos e dos sete pedidos do Pai-nosso.
A profissão de fé
            Na primeira parte do Catecismo temos que o ponto principal reside claramente nas ações de Deus, que o credo confessa fielmente.  Em primeiro lugar vem o ser, só depois o agir. Vem em primeiro lugar o que Deus fez: só depois se pode falar sobre o que o homem deve e pode fazer para responder a isso. O imperativo moral resulta do indicativo da ação de Deus.
            O ponto de partida do Catecismo é algo comum a todos os homens: a sua “capacidade de Deus”, a sua dimensão religiosa. Para tanto, segue a profissão de fé apostólica, o Símbolo Apostólico, antiga profissão de fé batismal da Igreja de Roma[1] mas sempre faz referência ao chamado Símbolo Niceno-Constantinopolitano[2].
            Para isso adota-se, seguindo o credo, uma estrutura trinitária da profissão de fé e também sua subdivisão tradicional em 12 artigos[3]: Não em vão é reconhecida a doutrina da Trindade Santa como o “ensinamento mais fundamental e essencial da hierarquia das verdades da fé” [4].
            O Catecismo centra-se na Trindade porque é cristrocêntrico: “O que se ensina na catequese é Cristo (...); o único que ensina é Cristo” [5]. Ele é o grande sacramento no qual Deus mesmo nos é manifestado[6]; a liturgia é a obra de Cristo glorioso que continua a agir na sua Igreja, por meio de seu Santo Espírito[7], para a cura e a salvação do homem[8]; assim é que se torna possível a vida em Cristo, isto é, seu seguimento verdadeiro[9], e que a oração, enquanto comunhão com Cristo tenha as mesmas dimensões que seu amor [10].
            Convém sublinhar alguns temas particulares da primeira parte: “a importância capital” [11] da catequese sobre a criação, que é apresentada como “fundamento de todos os desígnios salvíficos de Deus” [12] e, portanto, como “obra da Santíssima Trindade” [13]; a apresentação da ressurreição como “a verdade culminante de nossa fé em Cristo” [14]. Porém não como ponto de chegada de uma cristologia meramente de cima, mas como supremo e sem par ponto de conexão da história humana com o Deus transcendente; a explicação da realidade da Igreja em conexão íntima com os artigos sobre Cristo e sobre o Espírito Santo “para não confundir Deus com suas obras” [15] e para entender bem em que sentido não há salvação fora dela[16]·.
            No “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra” [17] temos que se explica que a fé em um só Deus inclui a fé na Trindade. “Crer em Deus, o Único, e amá-lo com todo o seu ser, tem consequências imensas para toda a nossa vida” [18]. A fé na Santíssima Trindade não está em contradição com a fé em um só Deus, mas é sua plena revelação: “A fé de todos os cristãos consiste na Trindade” [19]. O conceito sempre recorrente de “economia” ou “economia da Fé” refere-se a todas as obras de Deus, que são sempre obras comuns às três pessoas divinas[20].
            A primeira obra de Deus é a criação, e a ela é atribuída uma importância especial no Catecismo, sendo efetuada uma introdução geral sobre o significado da catequese sobre a criação[21]. Somente Deus é Criador[22] e a criação é a obra de seu amor e de sua bondade incomensurável, é expressão de sua sabedoria. Por isso, as criaturas são “palavra de Deus, e o homem, a quem é dada a luz da razão, pode perceber a linguagem de Deus em toda a sua criação” [23].
            Ligada, de modo inseparável, à fé na criação está a fé na “providência Divina, providência através da qual deus conduz sua criação à perfeição” [24]. Trata-se de uma solicitude concreta, direta de Deus.[25]. O fato de Deus em sua providência também incluir a atuação própria das causas segundas criadas acaba tendo grandes consequências para a visão da liberdade e da responsabilidade humana[26].
            O tema do mal é uma questão inevitável para todo o homem, e “não há nenhum elemento da mensagem cristã que não seja também uma resposta ao problema do mal” [27]. O testemunho dos santos[28] encoraja-nos a crer que Deus conduz tudo para o bem.
            O Catecismo tenta tirar da mensagem bíblica da obra dos “seis dias” as verdades que continuam válidas independentemente de questões relativas à concepção do mundo[29]. No contexto da criação são mencionados os anjos e o lugar deles na consciência da fé e na vida da liturgia não deve ser desprezado[30].      O parágrafo sobre a criação do homem[31] apresenta, de forma extremamente sucinta, os fundamentos daquela antropologia e podemos observar que a ênfase na unidade e ao mesmo tempo na distinção do corpo e da alma faz parte do cerne da visão cristã do homem.  Faz parte da fé a convicção da unidade essencial de corpo e alma constituindo uma única pessoa humana, e também a doutrina da criação direta do espírito por Deus, e a compreensão da morte como separação de corpo e alma até a ressurreição[32].
            Sobre o pecado original, expõe a doutrina de fé, com forte centralização cristológica do tema: “É preciso conhecer a Cristo como fonte da graça para conhecer Adão como fonte do pecado” [33]. “A doutrina do pecado original é o reverso da Boa Notícia de que Jesus é o Salvador de todos os homens, que todos têm necessidade da salvação” [34]. No âmbito do pecado original, é tratada também a questão dos Demônios que, segundo a fé, Deus os criou bons em sua natureza, mas se tornaram maus por sua própria iniciativa[35].
            Os artigos cristológicos[36] ocupam a maior parte da profissão de fé.  Em locais próprios são reconhecidos os atributos da maternidade divina de Maria[37] e um longo trecho é dedicado aos mistérios da vida de Cristo[38]. Cristo é o grande sacramento de Deus[39]. Também são expostas as particularidades da relação de Jesus com Israel[40] e o Catecismo lembra que foram nossos pecados que crucificaram Cristo: pecados que ele expiou e remiu por sua morte, segundo o desígnio de Deus[41]. No capítulo sobre escatologia e liturgia, o Catecismo faz afirmações importantes sobre o relacionamento entre cristãos e judeus.[42].
            Para a fé cristã é da maior importância a fé na ação redentora de Jesus Cristo e o Catecismo busca enaltecer os fatos a ela relacionados[43], valendo destacar: o cumprimento do desígnio divino da salvação; a morte de Jesus é considerada sob a perspectiva do projeto divino de salvação, que não exclui ninguém; e a morte de Jesus é o sacrifício perfeito da Nova Aliança. “A Ressurreição de Jesus é a verdade culminante da nossa fé em Cristo” [44].
            O Catecismo trata detalhadamente dos símbolos e alegorias do Espírito Santo[45] e, além disso, enfatiza a unidade que existe entre o envio do Filho e do Espírito Santo[46]. Faz-se referência expressa à atuação oculta do Espírito Santo no Antigo testamento.
            Sobre a Igreja, o Catecismo apresenta as denominações e alegorias da Igreja, vindo depois sua realização progressiva na história: ela tem suas raízes no desígnio eterno de Deus; de certo modo, tem na obra da criação seu primeiro esboço e projeto; é preparada na Antiga Aliança; é estabelecida por Cristo e manifestada pelo Espírito. Somente no final dos tempos ela terá consumação[47]. Sua essência e seu mistério tornam-se visíveis a partir de sua origem: a Igreja é ao mesmo tempo visível e espiritual, celeste e terrestre, divina e humana; é sacramento da união íntima dos homens com Deus e dos homens entre si.
            A Igreja é apresentada em seu mistério trinitário: como Povo de Deus, como Corpo de Cristo e como Templo do espírito Santo[48]. Todavia, a unidade nupcial da Igreja com Cristo acaba sendo o centro mais íntimo de seu mistério. As quatro características da Igreja são tematizadas expressamente: ela é uma Igreja uma, santa, católica e apostólica[49]·. A apostolicidade continua a ser explicitada no tratado sobre as três ordens dos fiéis de Cristo: hierarquia, leigos e religiosos.[50] Mostra que a dimensão essencial da Igreja vai muito além da forma visível como peregrina sobre a Terra. Há uma ligação entre a Igreja Celeste com a Igreja Terrestre. Com Maria e todos os santos, a Igreja da terra e dos céus constitui a única família de Deus.[51].
            No seu final expõe a doutrina sobre a ressurreição dos mortos, na qual a ressurreição de Cristo atinge a plenitude.[52]·. Terminamos com as palavras de Santo Agostinho: “O Símbolo seja para ti como um espelho. Olha-te nele para ver se realmente crês tudo o que declaras crer, e alegra-te cada dia com tia fé”[53]
Os Sacramentos
A segunda parte aparece muito estreitamente ligada à primeira, pois nela apresenta-se a liturgia da Igreja como a obra atual do Deus trino enquanto encaminha à salvação e santificação cada um dos seres humanos. As duas primeiras partes do Catecismo manifestam, em conjunto, algo de importância fundamental, que deveria ficar claro na catequese: é Deus que sai ao encontro da humanidade em sua Palavra e nos sacramentos.  A vida de moral e a vida de oração serão resposta à iniciativa divina.
Além do caráter trinitário, e em particular pneumatológico, do tratamento dado aos sacramentos, convém sublinhar sua ótica mistagógica e sua sensibilidade para o rito oriental. O sentido dos sacramentos é exposto a partir de seus elementos celebrativos, que aparecem como caminho introdutório ao mistério da salvação e santificação que celebram. A atenção aos ritos orientais ajuda a compreender melhor o mesmo mistério. Por outro lado, a classificação empregada (sacramentos de iniciação, de cura e da comunidade) é fundamentalmente pedagógica e não deverá fazer perder de vista que “todos os sacramentos estão unidos à eucaristia e a ela se ordenam” [54].
A segunda parte do Catecismo divide-se, como na construção de todas as quatro partes, em duas seções. A primeira, de caráter mais geral, aborda a economia da salvação sacramental, numa espécie de liturgia fundamental; a segunda trata da celebração dos sete sacramentos e dos sacramentais.
A grande perspectiva, na qual os sacramentos da Igreja continuam hoje as obras realizadas por Jesus Cristo durante sua vida terrestre[55]. Os sacramentos são como que essa força que sai do Corpo de Cristo, para curar as feridas do pecado e para nos dar vida nova em Cristo[56].
Quanto à hierarquia de verdades, os sacramentos são interpretados trinitária e cristocentricamente. Ambas as perspectivas completam-se. Assim sendo, no primeiro artigo a Liturgia é apresentada como obra da Trindade: O Pai é a origem e o fim da Liturgia[57]. No artigo sobre Eucaristia isso é mais concretizado: A Eucaristia é “ação de graças e louvor ao Pai” [58]. A liturgia é a obra de Cristo glorificado, que continua a atuar na Igreja[59], fazendo memória de seu mistério através do Espírito Santo na Igreja, atualizando-o e tornando-o atuante[60]. Neste capítulo fundamental são apresentados também os conceitos litúrgicos mais importantes como a anamnese (“memória”) [61], epíclese (“a invocação ao Espírito Santo”.) [62], Palavra de Deus[63].
O segundo artigo oferece uma breve sistemática dos sacramentos, através dos quais Cristo atualiza seu mistério e o torna eficaz. Os elementos mais importantes de uma doutrina sacramental geral estão apresentados[64].
As exposições que o artigo 3 apresenta são importantes do ponto de vista catequético (“Celebrar a liturgia da Igreja”, porque oferecem uma espécie de catequese da celebração litúrgica:
a)    Quem celebra? A relação da liturgia celeste com a liturgia terrestre é apresentada dentro da linha do Concílio[65]
b)    Como celebrar a liturgia? Os sinais e símbolos mais importantes da liturgia são analisados em seu significado antropológico, veterotestamentário, cristológico e litúrgico[66]. Palavras e ações, canto, música e imagens sagradas fazem parte da totalidade da liturgia[67].
c)    Quando celebrar a liturgia? O tempo litúrgico é apresentado em seus desdobramentos na Liturgia das Horas, no dia do Senhor e no ano litúrgico[68].
d)    Onde celebrar a liturgia? Fala-se sobre o local da celebração da liturgia, sobre a casa de Deus e sua simbologia[69]. Essas considerações completam-se como que se diz sobre a arte sacra na Parte III[70].
O artigo 4 do Capítulo II fala da diversidade das liturgias na unidade da Igreja celebrante. A questão de aculturação coloca-se no campo da Liturgia com especial urgência (Liturgia e Culturas) [71].
A apresentação dos sete sacramentos na Seção II faz-se através de um esquema catequético que pode, é claro, ter uma divisão diferente: os três sacramentos da iniciação cristã (Batismo, Confirmação e Eucaristia), os sacramentos de cura (Penitência e Unção dos Enfermos) e os sacramentos do serviço da comunhão (Ordem e Matrimônio).
Os sacramentos são apresentados de acordo com um esquema comum, e o ponto de partida é, na maioria das vezes, a explicação do nome com o qual o sacramento é designado[72]. A instituição dos sacramentos por Cristo[73] não é considerada isoladamente cada sacramento é situado no todo da história da salvação. Com seus prenúncios no Antigo Testamento, com sua fundamentação na vida de Cristo e seu desdobramento no tempo da Igreja[74].
A doutrina sobre cada sacramento não é apresentada de forma abstrata, mas a partir da Mistagogia da celebração litúrgica[75], pois os ritos do sacramento é o local próprio da catequese sacramental. Essa Mistagogia litúrgica é complementada por referências ao receptor, aos ministros e aos efeitos salvíficos do sacramento [76].
De caso pensado, procura-se apresentar não somente a tradição litúrgica latina, mas incluir também a práxis sacramental da Igreja Oriental. Assim são apresentados os sete sacramentos:
a)    Batismo: quanto a seus efeitos, merece referência especial o trecho sobre o batismo de crianças[77], sobre as crianças falecidas sem batismo[78], bem como sobre o mútuo relacionamento entre a remissão dos pecados (em primeiro lugar do pecado original) e o dom da graça[79].
b)    Confirmação: é devidamente apresentada a diferença de tradições entre Oriente e o Ocidente[80]. Com relação à idade exigida para o sacramento, faz-se referência ao pensamento de Santo Tomás de Aquino: “maturidade” não é uma questão de idade biológica[81].
c)    Eucaristia: para expor os aspectos litúrgicos da Eucaristia usando uma raiz comum a todas as famílias litúrgicas, o Catecismo parte da apresentação feita por S. Justino. A Mistagogia contém o que é comum a todas as famílias litúrgicas[82]. O caráter sacrifical da Eucaristia é claramente enfatizado, já que atualmente muitas vezes há falhas nesse ponto[83]. A doutrina sobre a real presença do Senhor na Eucaristia confirma-se com o apreço dado à adoração eucarística[84]. “Os frutos da eucaristia” são tratados de forma pormenorizada[85]. A questão da intercomunhão tem seu lugar especial[86]. O que de uma forma geral se pode dizer sobre os sacramentos[87] vale de forma particular para a Eucaristia: ela é o “penhor da glória futura” [88].
d)    Penitência e Reconciliação: nesse sacramento também é enfatizada a dimensão escatológica: ele é a antecipação do juízo[89]. O caráter salvífico do Sacramento da Reconciliação é fortemente acentuado[90]. O texto sobre as indulgências complementa a doutrina sobre a comunhão dos santos[91].
e)    Unção dos Enfermos: nesse sacramento o aspecto salvação é particularmente enfatizado[92]; e não faltam referências à associação aos sofrimentos de Cristo[93], ao significado do sofrimento para a santificação da Igreja[94] e à preparação para a morte, última passagem do cristão[95].
f)     Ordem: o sacramento da Ordem é aqui considerado em continuação ao que se expôs sobre eclesiologia[96], como forma especial da participação no único sacerdócio de Cristo. O sacerdócio ministerial é colocado a serviço do sacerdócio geral de todos os batizados[97]; o sacerdote, por este sacramento, age “na pessoa de Cristo-Cabeça” [98]. A exposição sobre os três graus da ordem segue amplamente os textos do Concílio Vaticano II. Faz-se referência aos textos litúrgicos que devem explicitar a graça desse sacramento[99].
g)    Matrimônio: primeiramente, chama-se a atenção para que é o “casamento no plano de Deus”: uma comunhão íntima de vida e de amor, que se destina ao bem do casal, à procriação e à educação de filhos. Ameaçada pela força do pecado, essa comunhão é restaurada por Cristo em sentido original[100]. O lugar do casamento na história da salvação é complementado através do significado da virgindade por causa do Reino dos Céus[101], já que ambos provêm do Senhor, que lhes dá pleno sentido[102]. Se a exigência do Senhor acerca do casamento parecer alta demais, ou até mesmo inatingível, mais importante será então a referência à graça que vem por Cristo[103]. Cita-se também o grande número de pessoas celibatárias, sobre cuja situação raramente se reflete[104].
Como uma coroa, os Sacramentais (as bênçãos, por exemplo) circundam os sete sinais dos sacramentos[105]. Eles são um lugar privilegiado da devoção popular. O CIC cita o Documento de Puebla, que acentua seu grande significado [106].
A segunda parte termina com a exposição sobre o funeral cristão, visto totalmente à luz do mistério pascal. Um belo texto de S. Simeão de Tessalônica, oriundo da tradição bizantina, que conclui este trecho e consequentemente a Parte II, faz referência ao objetivo último de toda a vida sacramental: “Estaremos todos reunidos em Cristo”[107]. Viver por e com Cristo é também a meta e o caminho da vida moral dos cristãos, como veremos na parte a seguir.
A vida em Cristo (O agir Cristão)
            O que foi tratado na primeira e segunda parte serve de ponte para a parte terceira (moral), que encontra seu ponto de partida no anseio do homem pela felicidade[108].
            A terceira parte articula as diversas questões concretas da vida moral no quadro tradicional do decálogo. Porém, o decálogo, por sua parte, não é apresentado como o quadro último da vida moral cristã. Isso teria dado lugar a uma moral do preceito e da obrigação. O quadro é dado, antes, pela lei nova, isto é pela lei interior da graça, do amor, da liberdade e do Espírito Santo[109]. Por isso, antes dos mandamentos fala-se, na primeira seção, do desejo de felicidade e da bem-aventurança cristã, da liberdade, da paixão natural e das virtudes que a orientam ao amor. Vale dizer que o quadro mais abarcante da moral cristã é a “pertença a Deus instituída pela aliança” [110] ou o seguimento de Jesus Cristo[111]. O decálogo, portanto, é interpretado à luz do “duplo e único mandamento da caridade” [112].
            Porém a moral Cristã não é só para os cristãos, não é moral de gueto; seu fundamento não se acha nas disposições mais ou menos sábias de um profeta inspirado a quem seguem os seus. O Espírito Santo, na verdade, conduz os seguidores de Jesus Cristo à verdade do próprio ser humano na qual estão radicadas as pautas do fazer verdadeiramente humano, que não permanecem nunca totalmente ignoradas por nenhum ser racional. A moral cristã é, por isso, tão específica como universal. Porque a lei nova assume e aperfeiçoa a lei natural. O Catecismo da Igreja Católica sai ao encontro da possível confusão entre lei moral natural e lei da natureza: aquela “chama-se natural não por referência à natureza dos seres irracionais, mas porque a razão que a proclama pertence propriamente à natureza humana” [113].
            Quanto aos conteúdos concretos da moral, o Catecismo não faz senão referir sinteticamente à doutrina da Igreja. A respeito da questão da pena de morte, que resultou tão controvertida.
            A terceira parte inicia-se com uma introdução cuja leitura é imprescindível. “Cristo, reconhece tua dignidade!” (São Leão Magno, 1691). As duas primeiras partes do Catecismo expõem o ser do cristão. Nesta terceira parte, o tema é a vida condizente com a dignidade do homem e do cristão.
            Novamente levando em conta a hierarquia das verdades, são ressaltados os dois pólos: a vida Cristã é uma vida que vem do Deus Trino[114], e é uma vida que vem em Cristo. Esta terceira parte expõe, em seu prólogo, o critério que deve ser seguido numa catequese da vida em Cristo[115].
Por mais que seja enfatizada a correlação entre a ação moral e a graça, nesta parte começa mencionando a vocação do homem, de sua condição de imagem de Deus[116]. Com isso, o Catecismo retoma o início da Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II Gaudium Spes. O caminho do homem em direção a sua altíssima vocação, a eterna bem-aventurança, está predefinido no fato de ser ele imagem de Deus, e é determinado a partir desse objetivo.
            A estrutura da Moral Fundamental segue a grande intuição da Summa de Santo Tomás de Aquino.  Apresenta-se primeiramente a doutrina sobre o fim último, a felicidade[117] e depois a doutrina sobre os meios que Deus proporciona ao homem para alcançar esse fim: a razão e o livre-arbítrio, através dos quais o homem determina seu caminho, a lei e a graça com as quais Deus o auxilia nesse caminho.
            Chamado à felicidade, o homem pode movimentar-se livre e responsavelmente em direção a esse fim último. A liberdade é o pré-requisito para um comportamento verdadeiramente humano e moral[118]. Em seguida fala-se a respeito do que caracteriza uma ação moral: seu objeto, sua intenção e suas circunstâncias[119]. Notável é a doutrina sobre as paixões, sem as quais faltam os impulsos para a ação moral[120], mas que também, quando não integradas, destroem o senso moral.
            A consciência julga a moralidade das ações. A obrigação de seguir a consciência é tão certa quanto à obrigação de examinar continuamente essa consciência, regulando suas convicções por critérios objetivos de moralidade[121].
            Do comportamento moral nascem disposições para o correto agir moral. Essas disposições para o bem são as virtudes. Elas estruturam o homem e conferem-lhe um caráter verdadeiramente humano[122]. As virtudes naturais necessitam de uma reformulação profunda e total através das disposições que só Deus pode conferir por meio da graça, e que relacionam nosso agir diretamente a Deus: fé, esperança e caridade[123].
            Pecado é o agir falho, que deixa de atingir o devido objetivo do ser humano. Sua realidade só pode ser plenamente percebida à luz da graça. Somente o Evangelho revela toda a verdade do pecado[124]. Porque o pecado é uma violação contra a razão, a verdade e a reta consciência[125] é uma afronta a Deus, que criou o homem para si[126]. A diferença entre o pecado mortal e o pecado venial é determinada pelo critério do amor[127]. Temos depois a exposição sobre a difusão do pecado até as suas consequências sociais, que finalizam o capítulo[128].
A dimensão social, comunitária do homem pertence inseparavelmente à moralidade. Em estreita dependência da Gaudium et Spes e da Doutrina Social da Igreja, trata-se da pessoa e da sociedade, da autoridade e do bem comum, da responsabilidade e da colaboração, da justiça social e da solidariedade[129]. Os desdobramentos concretos encontram-se na Seção II, sobre os Dez Mandamentos, principalmente nos artigos sobre o quarto, quinto e sétimo mandamentos. Assim, os diversos aspectos da Doutrina Social da Igreja são inseridos organicamente no conjunto da moralidade e fica patente a dimensão social e comunitária de toda a ação humana.
            O capítulo sobre a Lei e a Graça encerra a “Moral Fundamental”: “Chamado à Felicidade, mas ferido pelo pecado, o homem tem necessidade da salvação de Deus. O Socorro divino lhe é dado em Cristo na Lei que o dirige e na graça que o sustenta” [130]. A doutrina sobre a “lei moral” apresenta os três níveis da lei: a lei natural, a lei da antiga e a lei da nova aliança. A doutrina sobre a nova lei é, sem dúvida, o cerne da doutrina moral cristã[131]: É “uma lei do amor, da graça, da liberdade” [132].             O artigo da graça inicia-se com a doutrina da justificação, de grande importância do ponto de vista ecumênico. Ela é totalmente orientada por São Paulo, principalmente na Carta aos Romanos. O tema da graça perpassa todo o Catecismo. Aqui, ele é tratado de forma sistemática e sucinta[133]. A difícil, mas insubstituível, doutrina sobre o mérito[134] mostra como, através da graça e da justificação, possibilita-se ao querer e ao agir humano uma verdadeira cooperação com Deus. O parágrafo termina com a palavra de Santa Teresinha do Menino Jesus que, como ninguém, falando de coração, dá uma resposta à crítica dos reformadores contra a doutrina do mérito. Fiel ao Vaticano II, a doutrina da graça e do mérito leva à referência ao chamamento de todos para a santidade[135]: “Santidade” é a perfeita cooperação entre o socorro da graça divina e a liberdade humana. Assim, a “moral fundamental” culmina na consideração dessa realização máxima do homem, criado livre e à imagem de Deus, que consiste na comunhão salvífica e santificante com Deus: a santidade. Seu lugar é a Igreja, o “sacramento” dessa comunhão (2016; 2030).     O artigo sobre a Igreja, enquanto “Mãe e Mestra”, faz a passagem para o Decálogo. Vale a pena examinar esse trecho de forma mais pormenorizada, para inserir o magistério moral da Igreja no conjunto da realidade eclesiástica, principalmente da vida litúrgica[136].
            O prólogo da segunda seção apresenta os Dez Mandamentos segundo a Escritura e a Tradição. Salientam-se o caráter libertador do Decálogo[137], sua presença na pregação de Jesus[138], seu lugar na catequese da Igreja[139]. Não deve haver qualquer dúvida quanto à primazia da misericórdia[140].
            Os Dez Mandamentos são apresentados como desdobramentos do duplo mandamento do amor[141]. Ao tratar de cada mandamento sempre se faz referência primeiramente aos aspectos positivos, às virtudes e às condutas correspondentes. Contra esse pano de fundo, tonam-se patentes as condutas erradas que devem ser apontadas como falhas e pecados.  A relação dos pecados referentes a cada um dos mandamentos pode parecer, à primeira vista, muito severa. É preciso distinguir entre imputabilidade objetiva e imputabilidade subjetiva de uma ação[142]. A ignorância inculpável pode diminuir a responsabilidade de um pecado objetivamente grave, ou até “aboli-la definitivamente” [143]. Também na vida moral vale a “lei do crescimento” [144], do amadurecimento da personalidade e, consequentemente, da responsabilidade. Tal amadurecimento exige a ajuda da sociedade, formação e educação adequada[145] e a ajuda da graça[146].
            O artigo sobre o primeiro mandamento trata das “virtudes teologais” [147], antes de tratar das formas errôneas de atitude religiosa (superstição, idolatria, magia, ateísmo, agnosticismo). Dá-se importância especial à obrigação de a sociedade cultuar a Deus e ao direito à liberdade religiosa[148]. A santificação do nome de Deus e a santificação do Dia do Senhor são ressaltadas nos artigos sobre o segundo e o terceiro mandamento.  No artigo sobre o quarto mandamento, fala-se da família no plano de Deus. O quarto mandamento abrange, num sentido mais amplo, a relação com as diversas formas de autoridade, até mesmo a relação entre Estado e Igreja[149]. Positivamente, trata-se de uma postura de respeito que devemos primeiramente a nossos pais[150], mas também às autoridades[151]. Nesse sentido, faz-se referência, por exemplo, ao direito (e às vezes dever) que o cidadão tem de apresentar suas justas reclamações contra o que lhe parece prejudicial à dignidade das pessoas e ao bem da comunidade[152], e ao dever que as nações mais desenvolvidas têm de acolher os estrangeiros “na medida do possível” [153]. Fala-se também dos deveres dos pais[154] e das autoridades públicas[155]. O artigo sobre o quinto mandamento discorre sobre o respeito pela vida humana. Respeito que pode significar também a proteção da vida mediante as diversas formas de legítima defesa[156]. Todas as formas de homicídio são proscritas pelo quinto mandamento[157]. O respeito à dignidade humana exige respeito tanto pela alma como pelo corpo[158]. O esforço pela paz, enquanto condição para o bem comum[159] faz parte do quinto mandamento[160]. No sexto mandamento, aponta-se primeiramente o chamamento de todos à castidade enquanto bem-sucedida integração da sexualidade na pessoa[161]. Por isso as faltas contra o sexto mandamento são tratadas como ofensas à castidade[162]. O sexto mandamento significa positivamente um sim ao amor e à fidelidade conjugal[163], e condena tudo o que ofende a dignidade do matrimônio[164]. O sétimo mandamento fundamenta-se na virtude da justiça[165] e diz respeito ao trato correto dos bens terrenos. Fala-se do roubo[166], mas também da preservação da criação, do trato com os animais[167], da justiça econômica e social, da solidariedade entre as nações e do amor concreto pelos pobres[168]. O oitavo mandamento exige a virtude da veracidade[169]. Requer o testemunho em favor da verdade e do Evangelho[170]. Merecem atenção as referências a uma ética das comunicações[171] e aos temas da verdade, da beleza e da arte sacra[172]. A exposição sobre o nono e décimo mandamentos estabelece uma ponte dos Dez Mandamentos e as Bem-aventuranças: pureza e pobreza de coração mostram-se como as duas atitudes positivas que correspondem a esses mandamentos[173].
            A terceira parte termina como iniciou: como uma referência à meta última da vida humana: a eterna felicidade. Por esse caminho da perfeição, o Espírito e a Esposa chamam aquele que os ouve à comunhão perfeita com Deus [174].
Oração na Vida Cristã
            A parte IV é proposta como introdução prática à vida de oração, sem perder de vista o enfoque doutrinal adequado que há de supor. Porque o mistério da fé exige que os cristãos creiam, celebrem e vivam relação vivente e pessoal com Deus vivo e verdadeiro. Esta relação é a oração [175]. Tal objetivo alcança-se, antes de tudo, mediante a introdução na revelação trinitária da oração, porém também recorrendo à experiência orante dos santos e da tradição espiritual, tanto do Oriente como do Ocidente. O pai-nosso é meditato como “resumo de todo o evangelho” [176]. E a oração a Maria é apresentada, em perspectiva profundamente ecumênica, como comunhão[177] com aquela que é pura transparência de Cristo, a que “nos mostra o caminho” [178].
            A Seção I da parte IV trata da oração em geral, iniciando-se com uma espécie de definição da oração[179]. A oração é primeiramente dom de Deus. “Deus tem sede que tenhamos sede dele” [180]. O dom da oração corresponde ao anseio do homem. Orar é um ato humano; é a expressão daquela procura por Deus que o Criador colocou no coração do homem e da qual presta testemunho a busca de todas as religiões[181].
            “A revelação da oração” começa com a criação do homem por Deus. O homem é ser orante desde sua origem[182]. A oração incita o homem a se aprofundar cada vez mais em sua fidelidade a Deus. Abraão, Moisés, Davi, os profetas são etapas desse crescimento[183]. Os salmos constituem a forma sublime da oração no Antigo Testamento[184] constitui o centro misterioso de atração para a oração da Igreja[185]. Jesus ensina a orar, na medida em que ele próprio ora[186]. Enquanto verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, ele não somente ensina a orar, mas também acolhe a oração, investido de plenos poderes[187], A oração da Igreja desabrocha sob a ação do Espírito Santo[188] como bênção e adoração[189], como súplica e intercessão[190], como ação de graças e louvor[191]. A “Eucaristia contém e exprime todas as formas de oração” [192].
            Um capítulo especial é dedicado à tradição, à transmissão viva, e consequentemente ao aprendizado da oração[193]. Essas “fontes da oração” são a Palavra de Deus, sobretudo as três “virtudes teologais”: fé, esperança e caridade. O amor é a fonte mais profunda da oração[194]. O amor sabe viver no “hoje” de Deus[195]. Para aprender a oração precisamos não apenas de mestres da oração, mas também de um ambiente favorável[196].
            Fiel à visão trinitária do Catecismo, o “caminho da oração” é apresentado como oração no e ao Espírito Santo, em e a Jesus, o caminho para o Pai[197].  A oração em comunhão com Maria tem um lugar de destaque na oração da Igreja[198]. Não poderia faltar no Catecismo um breve comentário sobre a Ave-Maria[199].
            Tem um significado todo especial a exposição sobre as três formas de expressão da vida de oração: a oração vocal, a meditação e a oração mental, sendo que esta última pode também ser chamada de oração mística ou contemplativa[200], O trecho sobre a oração mental parte da conhecida definição de Santa Teresa D´Ávila, segundo a qual “a oração mental é apenas um comércio íntimo de amizade em que conversamos muitas vezes a sós com esse Deus por quem nos sabemos amados” [201]. A leitura reflexiva desse trecho é um convite para se procurar, com o auxílio do próprio Deus, o caminho da oração interior.
            Há um trecho especial dedicado ao combate da oração. Quem ora, conhece essa batalha: com a dispersão, a aridez, o tédio, a falta de confiança, a luta pela perseverança e pela fidelidade; sabe também como é imprescindível pedir a graça da perseverança final[202].
            A Seção II é um comentário sobre o Pai-nosso, a Oração do Senhor, em grande parte baseado na riqueza dos comentários feitos pelos Padres da Igreja. Nisso podemos ver mais uma vez, de forma bastante clara, que o Catecismo também é um livro para a meditação.
            Diz o Catecismo que o Pai Nosso é a oração da Igreja e que este dom indissociável das palavras do Senhor e do Espírito Santo que lhes dá vida no coração dos crentes, a Igreja o recebeu e viveu desde as origens.  Os três primeiros pedidos têm por objeto a Glória do Pai: a santificação do Nome, a vinda do Reino e o cumprimento da Vontade divina. Os quatro seguintes apresentam-lhe nossos desejos: esses pedidos concernem à nossa vida, para nutri-la ou para curá-la do pecado, e se relacionam com nosso combate visando à vitória do Bem sobre o Mal[203]. Pelo “Amém” exprimimos nosso “Fiat” em relação aos sete pedidos: “Que assim seja” [204]

            A elaboração deste trabalho permitiu-me antever que a aplicação do Catecismo da Igreja Católica é muito útil na questão da transmissão, dos métodos e da tradução, mas nada se compara a sua função mais nobre que é oferecer uma catequese para os catequistas, revelando-se um livro de fé fundamental para os transmissores da fé e uma valiosa ajuda para todos aqueles que querem conhecer melhor sua fé.
            Para concluir este trabalho vale destacar a declaração de Bento XVI sobre a singeleza e importância do Catecismo para a fé católica: “foi apresentada a um bispo já idoso, muito respeitado por sua erudição, uma das últimas redações do Catecismo antes da publicação, para que fosse por ele avaliada. Ele devolveu o manuscrito com uma expressão de alegria. Sim, disse ele, nisso é que minha mãe acreditava. Estava feliz porque a fé, que ele aprendera quando criança e que o conduzira ao longo de sua vida, estava ali expressa em palavras, em toda a sua riqueza e beleza, mas também em toda a sua simplicidade e indestrutível identidade. Essa é a fé de minha mãe: a fé de nossa mãe, da Igreja. Para esta fé é que o Catecismo nos convida”.
                                                       Referências
A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. 6ª. Reimpressão. São Paulo: Paulus, 2010.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA: Edição Típica Vaticana. São Paulo: Loyola, 2000.
HASTENTEUFEL, Dom Zeno. O Catecismo ao Alcance de Todos: Uma síntese do catecismo da Igreja Católica. Brasília, Edições CNBB, 2013.
NAVARRO, V. M. DICIONÁRIO DE CATEQUÉTICA. São Paulo: Paulus, 2004.
RATZINGER, Joseph – Breve Introdução ao Catecismo da Igreja Católica. 1 Ed. Aparecida, SP: Santuário, 1997.
SANTA SÉ. Symbolum – Percursos e aprofundamentos sobre o Catecismo da Igreja Católica. Brasília: Edições CNBB, 2014.



[1] CIC 194
[2] CIC 195
[3] CIC 191
[4] CIC 234
[5] CIC 427
[6] CIC 515
[7] CIC 1084-1109
[8] CIC 1116
[9] CIC 1694-1698
[10] CIC 2565
[11] CIC 282
[12] CIC 280
[13] CIC 290
[14] CIC 638
[15] CIC 750
[16] CIC 846
[17] CIC 199-421
[18] CIC 222
[19] CIC 232
[20] CIC 236, 258
[21] CIC 282-289
[22] CIC 290-292.
[23] CIC 299
[24] CIC 302
[25] CIC 303; 305
[26] CIC 307
[27] CIC 309
[28] CIC 313
[29] CIC 337-349
[30] CIC 328-336
[31] CIC 355-379
[32] CIC 362-368
[33] CIC 388
[34] CIC 389
[35] CIC 391
[36] CIC 422-682
[37] CIC 487-507
[38] CIC 512-570
[39] CIC 515
[40] CIC 574-591
[41] CIC 599-618
[42] CIC 673-674; 1096
[43] CIC 595-617
[44] CIC 638
[45] CIC 694-701
[46] CIC 689-690
[47] CIC 751-776
[48] CIC 781-801
[49] CIC 817-865
[50] CIC 871 e 933.
[51] CIC 946-959
[52] CIC 988-1060
[53] CIC 1064
[54] CIC 1324
[55] CIC 1115
[56] CIC 1116
[57] CIC 1077-1083
[58] CIC 1359-1361
[59] CIC 1084-1090
[60] CIC 1091-1109
[61] CIC 1103
[62] CIC 1105-1107
[63] CIC 1100-1102
[64] CIC  1113
[65] CIC 1136-1144
[66] CIC 1145-1152
[67] CIC 1153-1162
[68] CIC 1163-1178
[69] CIC 1179-1186
[70] CIC 2500-2502
[71] CIC 1204-1206
[72] CIC 1214-1216
[73] CIC 1113-1116; 1210
[74] CIC 1286-1292
[75] CIC 1234-1245
[76] CIC 1246-1274
[77] CIC 1250-1252
[78] CIC 1261
[79] CIC 1262-1266
[80] CIC 1290-1292
[81] CIC 1308
[82] CIC 1245-1355
[83] CIC 1362-1372
[84] CIC 1380
[85] CIC 1391-1397
[86] CIC 1398-1401
[87] CIC 1130
[88] CIC 1402-1405
[89] CIC 1458; 1470
[90] CIC 1432, 1439, 1456, 1465
[91] CIC 1474-1477
[92] CIC 1506-1510; 1512
[93] CIC 1521
[94] CIC 1522
[95] CIC 1523-1525
[96] CIC 874-899
[97] CIC 1544-1547
[98] CIC 1548
[99] CIC 1585-1588
[100] CIC 1602-1617
[101] CIC 1618-1620
[102] CIC 1620
[103] CIC 1642
[104] CIC 1658
[105] CIC 1667-1670
[106] CIC 1674-1676
[107] CIC 1690
[108] CIC 27-30; 1718-1719.
[109] CIC 1972
[110] CIC 2062
[111] CIC 2053
[112] CIC 2055
[113] CIC 1995
[114] CIC 1693-1695
[115] CIC 1697-1698
[116] CIC 1701-1709
[117] CIC 1716-1724
[118] CIC 1730-1742
[119] CIC 1749-1756
[120] CIC 1762-1770
[121] CIC 1776-1794
[122] CIC 1803-1811
[123] CIC 1812-1832
[124] CIC 1846-1848
[125] CIC 1849
[126] CIC 1850
[127] CIC 1845-1856
[128] CIC 1865-1869
[129] CIC 1877-1942
[130] CIC 1949
[131] CIC 1965-1974
[132] CIC 1985
[133] CIC 1996-2005
[134] CIC 2006-2011
[135] CIC 2012-2016
[136] CIC 2031;2041
[137] CIC 2057
[138] CIC 1052-1055
[139] CIC 2064-2068
[140] CIC 2074
[141] CIC 1067, 2083, 2197
[142] CIC 1735
[143] CIC 1860
[144] CIC 2343
[145] CIC 2344
[146] CIC 2345
[147] CIC 2095-2109
[148] CIC 2104-2109
[149] CIC 2244-2246
[150] CIC 2214-2220
[151] CIC 2238-2243
[152] CIC 2238
[153] CIC 2241
[154] CIC 2221-2231
[155] CIC 2235-2237
[156] CIC 2263-2267
[157] CIC 2268-2269
[158] CIC 2284-2301
[159] CIC 1909
[160] CIC 2302-2317
[161] CIC 2337-2347
[162] CIC 2351-2359
[163] CIC 2360-2379
[164] CIC 2380-2391
[165] CIC 2407
[166] CIC 2408
[167] CIC 2415-2418
[168] CIC 2443-2449
[169] CIC 2468
[170] CIC 2471-2474
[171] CIC 2493-2499
[172] CIC 2500-2502
[173] CIC 2518; 2546
[174] CIC 2550
[175] CIC 2558
[176] CIC 2761
[177] CIC 2673
[178] CIC 2674
[179] CIC 2559-2565
[180] CIC 2560
[181] CIC 2566
[182] CIC 2569
[183] CIC 2570-2584
[184] CIC 2585-2589
[185] CIC 2598-2606
[186] CIC 2607-2615
[187] CIC 2616
[188] CIC 2623-2625
[189] CIC 2626-2628
[190] CIC 2629-2636
[191] CIC 2637-2643
[192] CIC 2643
[193] CIC 2650-2651
[194] CIC 2658
[195] CIC 2659-2660
[196] CIC 2683-2691
[197] CIC 2664-2672
[198] CIC 2617-2619; 2673-2675
[199] CIC 2676-2679
[200] CIC 2799-2719
[201] CIC 2709
[202] CIC 2725-2745
[203] CIC 2857
[204] CIC 2865