sábado, 29 de maio de 2021

O tempo passa e não podemos segurá-lo


 

     O Evangelista São Lucas narra que:

Caminhando Jesus e os seus discípulos, chegaram a um povoado onde certa mulher chamada Marta o recebeu em sua casa. Maria, sua irmã, ficou sentada aos pés do Senhor, ouvindo a sua palavra. Marta, porém, estava ocupada com muito serviço. E, aproximando-se dele, perguntou: "Senhor, não te importas que minha irmã tenha me deixado sozinha com o serviço? Dize-lhe que me ajude!" Respondeu o Senhor: "Marta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coisas; todavia apenas uma é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada". (Lc 10, 38-42)

Que significa a afirmação de que Maria escolheu a melhor parte? Mas quais são as situações existentes, dentre as quais Maria pode escolher a melhor de todas? Temos a vida ativa representada por Marta. Temos a vida contemplativa representada por Maria. Na parte que cabe à Marta, vemos que está de pé, ocupada em praticar obras corporais de misericórdia e caridade, boas e honestas. Na parte que cabe à Maria, vemos que está deitada. Absorvida em meditações espirituais salutares, durante as quais o ser humano considera a sua própria miséria, a Paixão de Cristo e as alegrias do Céu.

Tanto a primeira como a segunda parte, embora sejam boas e santas, terminam com a vida presente. Conforme dito pelo próprio Senhor, Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada. Não somos deste mundo. Assim, na outra vida, já não haverá necessidade, como agora, de praticar obras de misericórdia, nem de chorar por causa da nossa miséria ou da Paixão de Cristo. Ninguém terá fome nem sede. Não morrerá de frio, nem andará doente, nem se encontrará sem abrigo ou na prisão; não será necessário enterrar os mortos, porque ninguém morrerá. Contudo, essa parte, que Maria escolheu, também será escolhida por aqueles que ouvirem o apelo da graça. Tal parte nunca lhes será tirada, pois começa aqui, mas durará para todo o sempre.

   Uma importante graça que podemos receber de Deus é cairmos de nosso pedestal. A partir daí, toda uma série de graças sucessivas nos irão fortalecer em nossa árdua missão. Jesus Cristo, Nosso Senhor, nunca deixou de estar junto de nós, derramando graças atrás de graças a fim de nos fazer aptos para a missão que nos confiou. (Jo 20,21-23).

   É desta forma que Jesus Cristo atua em cada um de nós, seus discípulos. Fortalece-nos com sua graça para que, atravessando dificuldades atrás de dificuldades, muros atrás de muros, possamos levar a cabo nossa missão, pois não há discípulos sem missão, pois são dois termos indissociáveis.

   Ao chamar os discípulos para segui-lo, Jesus Cristo lhes dá uma missão muito precisa: “Anunciar o Evangelho do Reino a todas as nações” (Lc 24,46-48). Por isso, todo discípulo é necessariamente, um missionário. Cumprir essa missão não é uma tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã, porque é a extensão testemunhal da própria vocação.

   No antigo testamento, podemos relembrar a narrativa do Pentateuco, em especial dos Livros dos Números e do Deuteronômio, acerca da caminhada do povo de Israel rumo à terra prometida tendo à frente o patriarca Moisés. Refletindo sobre essa caminhada podemos verificar e avaliar sobre:

1)     1. O período do deserto e das provações nele passadas;

2)     2. Considerar com seriedade as advertências para que a posse da terra traga felicidade; e

3)     3. Trazer sempre presente na mente a memória do tempo passado.

   Fazendo uma analogia com os tempos de hoje temos que ao depararmos, em nossa caminhada terrena, com momentos mais críticos e difíceis, somos levados a esquecer do período de “deserto” e voltar nossos olhos para a “terra prometida”, e muitas vezes não nos damos conta de que o “deserto” é uma oportunidade de preparação, extremamente necessária para a purificação e para conversão. Significa uma mudança de vida.

   É nesta época de “deserto” que brota o ensinamento para compreendermos o verdadeiro sentido do Mistério que tem necessidade, primariamente, de exprimir-se por si em um maravilhoso encontro pessoal com Jesus Cristo.

   Se de um lado podemos observar que nossos dias se caracterizam por uma incessante busca de um sentido autêntico para nossa existência. De outro, devemos combater a indiferença e a tibieza que muitas vezes toma conta de nossas atitudes e comportamentos. O tempo passa e não podemos segurá-lo.

   Vale à pena trazer presente a memória histórica que nos permite reconhecer que existe um patrimônio histórico e cultural construído pela Santa Igreja, que não se pode desprezar: a Escritura, a Tradição e o Magistério e que pode nos servir à orientação, para compreender, aprofundar e direcionar nossa existência.

   Finalmente, rezemos como o doutor da Igreja, São Tomás de Aquino, suplicando essa graça:  “Concedei-me, suplico-vos, uma vontade que vos procure, uma sabedoria que vos encontre, uma vida que vos agrade, uma perseverança que nos espere confiadamente e uma confiança que no final chegue a possuir-vos”

 

 

 


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Temer o fogo Eterno da Condenação


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São Policarpo de Esmirna
Aproveitamos o início da Quaresma para meditarmos sobre este grande santo da nossa Igreja, tratamos de alguns aspectos relacionados à vida de São Policarpo (†156) que foi bispo de Esmirna.
Policarpo, extremamente jovem, foi convertido pelo apóstolo João no ano 80 e “instituído pelas testemunhas oculares da vida do Verbo” (SGARBOSSA, 2005). Sua investidura no cargo de bispo de Esmirna foi realizada pelo próprio apóstolo São João.
Em depoimento de Santo Irineu, que foi seu discípulo, Policarpo foi discípulo de São João Evangelista. Além disso, recebeu instruções diretas de Santo Inácio de Antioquia acerca de seus deveres de pastor, tendo sido exortado a “ser atleta, firme como bigorna sob os golpes do martelo” (ALTANER, 2004).
Com relação à sua doutrina, há referência a diversas cartas a comunidades e a bispos em particular, conforme atestado em depoimento de Santo Irineu, das quais resta uma carta escrita aos cristãos de Filipéia, na Macedônia, em resposta ao pedido de alguns bons conselhos, formulado a quem conhecera de muito próximo o apóstolo predileto de Jesus, assim como alguns escritos de Inácio de Antioquia, ou de “outros que tinham visto o Senhor” (SGARBOSSA, 2005).
No ano 155 estava em Roma com o Papa Aniceto tratando de vários assuntos da Igreja, inclusive a data da Páscoa. Mas, não se conseguiu um entendimento entre ambos. Combateu os hereges gnósticos e quando Marcião, o heresiarca, destituído por seu bispo, perguntou a Policarpo se o conhecia, este respondeu: “Sim, eu te conheço: És o primogênito de Satanás” (ALTANER, 2004).
O procônsul romano Estácio Quadratus conseguiu descobrir Policarpo escondido em um celeiro. O Bispo não bramia como seu amigo Inácio para ser enviado como pasto às feras. Era já idoso, completara 86 anos e estava ciente de não poder depositar muita confiança em suas próprias forças.
Mas, uma vez capturado, deu prova de serena coragem, e o procônsul, que o exortava a renegar a Cristo, dele ouviu esta resposta tranquila: “Já sirvo há 86 anos e não me fez nenhum mal; como poderei blasfemar agora contra o rei que me redimiu?”. E diante da ameaça de ser queimado vivo, retrucava: “O fogo que me ameaça queima um momento, depois passa; eu temo, isto sim, o fogo eterno da condenação”.
A profissão de fé do idoso bispo custou-lhe a condenação à pira. Tornou-se assim “um pão que se cozinha”, eucaristia viva, enquanto seus lábios pronunciavam a última e maravilhosa oração: “Sê, pois, bendito para sempre, ó Senhor...”
O martírio de São Policarpo é a mais antiga narrativa da paixão e morte de mártir que se tenha conservado.
Na Igreja latina, São Policarpo é honrado a 26 de janeiro. Seus companheiros recolheram seus ossos, mais valiosos que pedras preciosíssimas, mais apreciados que ouro, e os sepultaram num lugar apropriado.

Referências

ALTANER, B; STWIBER, A. Patrologia. 3 ed. São Paulo: Paulus, 2004.
LIÉBAERT, JACQUES. Os Padres da Igreja: Séculos I-IV. 3ed. São Paulo: Loyola, 2000.
PADOVESE, LUIGI. A Introdução à Teologia Patrística. 2 ed. São Paulo: Loyola, 2004.
SGARBOSSA, MARIO. Os Santos e os Beatos: da Igreja do Ocidente e do Oriente. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 2005

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Racionalidade Econômica


    A Economia e a Escassez

A corrente principal de pensamento econômico ocidental define-se a si mesmo como a ciência da escassez. Muitas ciências analisam os comportamentos individuais e coletivos de muitos pontos de vista. A economia analisa esses comportamentos porquanto eles envolvem o problema da escassez. Por sua vez a escassez deve ser vista como um descompasso, um desajuste entre as necessidades e os recursos. A escassez só aparece quando existe desequilíbrio entre demanda e a oferta.
            A natureza humana produz inesgotáveis necessidades. E o simples fato de atender a determinados anseios não apaga os desejos, mas os desloca sobre outros objetos. As necessidades não se esgotam e o problema de escassez permanece sem solução. A palavra necessidade dá a impressão de que se trata de algo indispensável. A economia não cuida apenas do indispensável, interessa-se também pelo surpéfluo. A fronteira entre ambos é relativa. Hoje todos concordam que ter luz em casa é indispensável; há 200 anos, ninguém tinha; portanto era dispensável. No correr dos tempos certos bens e serviços tornam-se necessários simplesmente em função de seu uso social.  O curioso é que se observa certa tendência da pessoa em definir como dispensável e luxuoso  o consumo dos outros.
            A escassez lastreia uma propriedade econômica fundamental que é o valor. A falta que se sente ou que se irá sentir leva o homem a dar valor não só aos bens e serviços, mas também às pessoas, idéias, obras artísticas, emoções e a tudo e a todos que preza. A experiência humana universal confirma que o homem “valoriza apenas aquilo a que aspira em maior quantidade ou qualidade do que o disponível” (VERVIER, 1991, p 262).  O valor e seu conceito anexo de “riqueza” podem servir de fio da meada para contar a história do pensamento econômico.
            Para os mercantilistas primitivos, a riqueza era apenas o acúmulo de dinheiro. Os fisiocratas franceses refinaram o pensamento econômico identificando a verdadeira riqueza de uma nação com sua capacidade produtiva. Os marginalistas[1] escolhem um caminho mais abstrato: a riqueza aumenta com o grau de satisfação individual e coletiva. Para os economistas clássicos, o valor das coisas é de certa forma proporcional à quantidade de trabalho humano envolvido na sua produção. A definição aponta certamente um elemento gerador de valor essencial, mas ela peca por omissão, como ilustrado no exemplo abaixo:
A construção de uma ponte de concreto no meio da selva amazônica envolverá uma enorme quantidade de trabalho sem produzir nenhum valor. Se o produto não tem uma utilidade individual e social, ele não valerá nada mesmo que sua produção seja trabalhosa. (VERVIER, 1991, p 262).
            Assim, para se estabelecer o valor em regime de escassez no mercado, é importante levar em consideração os custos e as dificuldades para produzir algo e, também, a utilidade do produto. A definição do valor, certamente, irá atingir um maior grau de generalidade, eis que não abrange apenas os bens tradicionalmente econômicos, mas, sim, tudo o que o ser humano preza.   Por tudo isso o valor é individual, uma vez que as necessidades são heterogêneas e transitórias. O preço é para o valor uma medida convencional e relativa. A verdadeira medida do valor encontra-se no preço de determinado bem relativamente aos preços dos demais produtos e recursos disponíveis. Nesse sentido o preço serve de denominador financeiro comum de uma infinidade de coisas fisicamente heterogêneas.
            Não se pode reduzir o campo de aplicação do princípio da escassez como fonte do valor exclusivamente ao domínio do intercâmbio de bens materiais. “A superação da escassez se constitui numa dimensão fundamental e nobre da felicidade humana, e, portanto, a definição formal da ciência econômica vai muito além de seu campo de aplicação tradicional” (VERVIER, 1991, p 263).



[1] Os marginalistas são considerados economistas da escola neoclássica que sucedeu a escola clássica. Surgiram ao final do século XIX. O pensamento marginalista concentra sua análise na oferta e na demanda, na racionalidade de um indivíduo e sua capacidade de maximizar a utilidade ou o lucro. Emprestou grandes avanços no uso de modelos matemáticos na economia.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Os Patriarcas



Sagrada Escritura



O povo com o qual Deus fez a primeira Aliança é, também, denominado “povo de Deus”. Este povo desenvolveu-se perto do Mar Mediterrâneo, no Oriente Médio, onde hoje estão Israel e Palestina. No início, era um pequeno grupo de migrantes que saiu da Mesopotâmia e eram chamados hebreus, liderados por Abrão que passou a se chamar Abraão[1], um rico chefe de tribo, da região de Ur, na Caldeia, sul do atual Iraque. Os hebreus se distinguiam por acreditarem num Deus único e pela consciência de que este Deus, de bondade pura, caminhava com eles. Ao longo da história, este povo teve outras denominações como, por exemplo, povo de Israel, povo Judeu. Este trabalho cuidará de levantar os aspectos relacionados à mensagem teológica presente nas narrativas acerca dos patriarcas Abraão, Isaac, Jacó e José, que, em grande parte de suas vidas, peregrinaram de um lugar para outro seguindo itinerários que cobriram um amplo raio que vai desde Ur dos Caldeus, na Mesopotâmia, até o Egito, passando por Harã e Canaã, destino final e onde eles residiram a maior parte do tempo. Como descreveremos a seguir, esses itinerários patriarcais contribuíram decisivamente para que houvesse uma coesão dos legados teológicos por eles deixados.

Abraão, o Pai da fé

Descendente de Sem, Abraão, em obediência ao chamado de Deus,  deixou sua terra e foi em direção à Terra Prometida. Esta obediência implicava sacrifício, mas a sua fé era grande. Pôs-se em viagem, deixou sua pátria e suas propriedades levando consigo sua esposa Sarai, que passou a se chamar Sara[2], seu sobrinho Lot e grande quantidade de servos e chegaram à terra de Canaã. Caminhou por Siquem, Hebron, Betel e Bersabé. Andou também até o Egito.
Algumas características da personalidade de Abraão, modelo de fé, levaram-no a uma conversão total implicando transformação de sua própria vida. A narração bíblica de sua vocação mostra-nos um homem temente e obediente a Deus e que nem as condições de limites físicos e emocionais o levaram a desacreditar na vontade do Senhor. Diante de sua adiantada idade, com mais de cem anos, e tendo presente a condição de esterilidade de sua esposa, demonstrou personalidade decidida e buscou fazer a sua parte e não ficar de braços cruzados na espera da realização das promessas. Adotou como filho um servo, mas foi-lhe dirigida pelo Senhor a palavra de que “não será esse o seu herdeiro, mas alguém saído de seu sangue”[3]. A fé de Abraão é a confiança numa promessa humana irrealizável.
Por conselho de sua mulher Sara, Abraão se uniu a uma escrava, Agar, que deu à luz Ismael. Fez isto porque era costume na época considerar filho da esposa o filho da escrava da esposa, quando ela consentia. Também desta vez Deus se manifestou dizendo que a sua descendência proviria dele e de Sarai[4]. Abraão ficou agora sem saber o que fazer, mas acreditou e esperou. No entanto, Abraão e Sara envelheciam. Um dia, enquanto estava acampado em Mambré, apareceram três anjos sob a forma humana e lhe anunciaram o nascimento de um filho, o que aconteceu um ano depois. O filho foi chamado Isaac[5].
Tudo parecia resolvido, mas a fé de Abraão devia ser ainda duramente provada. O filho cresceu e se tornou adolescente. Deus mandou que lhe imolasse Isaac no monte Moriá. Sem duvidar mais uma vez, Abraão passou na prova da fé e da obediência. No último momento Deus impediu o sacrifício e lhe renovou todas as promessas[6].
Que sentido pode-se tirar desse episódio? Deus é o Deus da vida e não da morte. O testemunho dado por Abraão de obedecer fielmente à vontade de Deus denotou sua disposição sempre viva de fazer o que Deus lhe ordenasse, mesmo que lhe custasse a vida de seu único filho. Abraão morreu aos 175 anos de idade e foi sepultado numa gruta que ele comprou de um heteu sem ter um palmo de terra própria. Deus lhe tinha prometido que seria pai de uma grande nação numa Terra Prometida. A promessa de Deus se cumpriu na sua descendência [7].

A Continuidade da Promessa em Isaac
Abraão estava então quase no fim da vida e pensou que Isaac devia constituir família, mas como o Senhor tinha proibido de fazer desposar os seus descendentes com mulheres cananeias, mandou um velho servo a Nacor na Mesopotâmia e ali foi encontrada Rebeca. Isaac a desposou e teve dela dois filhos gêmeos: Esaú e Jacó.
Da mesma forma que acontecera com Abraão, temos que para Isaac foi mantido o mesmo discurso divino relacionado à benção e à promessa. A ele o Senhor apareceu e disse que estaria com ele, o abençoaria e faria sua posteridade numerosa.[8] Outra questão importante é que ele se tornou extremamente rico e pôde restituir ao povo hebreu os poços que tinham sido cavados nos dias de seu pai Abraão e que os filisteus tinham entulhado[9].


Jacó, o Pai das Doze Tribos de Israel.

Com relação à descendência de Isaac observa-se que seu filho Esaú cedeu o seu direito à primogenitura a Jacó por um prato de lentilhas[10]. Usando de ardil ao fazer-se passar por seu irmão[11], Jacó logrou obter a benção de primogenitura à época em que Isaac já se encontrava em idade avançada. Esaú passou a odiar Jacó por causa da benção que seu pai lhe dera[12]. Jacó teve que fugir para Harã onde se casou com duas irmãs, Lia e Raquel, e depois de muitas vicissitudes voltou a se reconciliar com seu irmão Esaú[13].
Releva observar que Jacó teve um sonho onde o Senhor lhe renovava as mesmas promessas que haviam sido feitas a Abraão e a Isaac[14]. Em outro episódio, Deus, em forma de homem, se pôs a lutar com Jacó e os dois lutaram até a aurora despontar. Deus o aleijou, mas não conseguiu vencer Jacó que não o quis largar até ter recebido dele sua benção. Na ocasião Deus mudou o nome de Jacó para Israel, que significa “aquele que luta com Deus e vence” [15].
Israel teve doze filhos. Deles surgiram as doze tribos de Israel. O mais velho foi Rubem que também cedeu o direito à primogenitura para Judá. Entre os filhos de Jacó, o mais novo, era José, nascido da esposa predileta de Israel: Raquel. Israel tinha para com ele um amor especial por ser o filho de sua velhice. Por isso era invejado pelos seus irmãos. Além disto, ele frequentemente tinha sonhos proféticos, o que incomodava os irmãos.

José do Egito, o filho de Israel

A longa narração da história de José pertence à tradição Eloísta. Para os Javistas, Deus se manifestava de forma antropomórfica, para os eloístas os sonhos punham o homem em contato com Deus, sendo muitas vezes considerados como revelação do futuro, como presságios. José tinha este dom de Deus: ter manifestações divinas através de sonhos e o dom de interpretar os sonhos dos outros.
Por causa da inveja, os irmãos de José o venderam como escravo e ele foi levado para o Egito. Deus estava com José e lá no Egito, embora passando sofrimentos e tentações, se tornou grande e poderoso, eis que revelou o sentido de um sonho do Faraó que se encantou com ele e o nomeou Vice-Rei do Egito.
Durante um grande período de carestia, o clã de Israel se viu obrigado a procurar alimentos no Egito. Foi lá que José reencontrou seus irmãos e lhes perdoou o mal que eles lhe tinham causado. Mandou vir para o Egito toda a sua família e encontrou seu velho pai, Israel (Jacó), tendo recebido sua bênção. Conheceu seu irmão Benjamim, que tinha nascido depois de sua partida ao Egito, e viveu seus últimos anos abençoado por Deus.  José e seus irmãos formaram as 12 tribos que deram origem ao povo eleito.
A história de José leva-nos a enxergá-lo como um tipo de José, esposo de Maria. A passagem em que o Faraó disse a José: “Visto que Deus te fez saber tudo isso, não há ninguém tão inteligente e sábio como tu. Tu serás o administrador de meu palácio e todo o meu povo se conformará às tuas ordens, só no trono te precederei”. José morreu com a idade de cento e dez anos; embalsamaram-no e foi posto num sarcófago, no Egito[16].

Patriarcas, líderes do Povo escolhido por Deus

A riqueza de bênçãos com que Javé impera na natureza e na história também é tema das histórias dos patriarcas: “O Senhor abençoa seu povo pela promessa de terra e descendência. Este povo deve tornar-se bênção para todos os povos” (SCHNEIDER, 2012). “As promessas divinas perpassam como água por todas as narrativas dos patriarcas” (LÓPEZ, 2006), a saber:

    I.         Promessa de um filho: Gn 15,4; 16,11; 17,16.19-21; 18,10.14 (Abraão)

  II.         Promessa de descendentes: Gn 12,2; 13,16; 15,5; 16,10; 17,2.4-6; 21,12-13; 22,16-18 (Abraão); 26,4.24 (Isaac); 28,14; 35,11; 46,3 (Jacó).

III.         Promessa de uma terra: Gn 12,1.7; 13,14-15.17; 15,7.13-16.18; 17,8 (Abraão); 26,2-4 (Isaac); 28,13.15; 35,12 (Jacó).

IV.         Promessa de assistência/acompanhamento: Gn 26,3.24 (Isaac); 28,15; 31,3. 46,4 (Jacó)

   V.         Promessa de bênção: 12,2-3; 17,16.20; 22,17.18 (Abraão); 26,4.24 (Isaac); 28,14 (Jacó)

Nas narrativas de José, faltam os discursos divinos e, consequentemente, também as promessas. José conhece a vontade de Deus por meio dos sonhos. Os discursos divinos se situam na perspectiva do patriarca ao qual se dirigem, mas apontam em última instância para a história de Israel. Alguns constituem um verdadeiro programa divino não somente para os patriarcas, mas também para os seus descendentes.
Ao que se sabe hoje, a época dos patriarcas não pode ser demarcada como período claramente delimitado. Mais importante é saber da característica do seu modo de vida como pacatos pastores de gado de pequeno porte na periferia da terra de cultura. Este modo de existência marcou a experiência de Deus para eles, a qual pode ser sintetizada nos seguintes aspectos:

            a) Deus providencia o espaço vital necessário (promessa da terra);
            b)  A continuidade de existência do clã (promessa da descendência).
A estrutura linguística “O Deus de Abraão, Isaac e Jacó” ou “O Deus do meu/teu Pai” introduz um componente pessoal na experiência de Deus. O Deus cultuado dá proteção ao clã que o adora e acompanha os grupos migrantes. Deus não se prende a um lugar, mas a uma comunidade humana.
A maioria dos exegetas parte hoje da premissa de que os patriarcas foram personagens históricos – certamente lideres ou patriarcas fundadores de clãs nômades --, ao redor dos quais se teceram incialmente narrativas em tradição oral, nas quais também entraram experiências posteriores dos respectivos clãs.
O mais antigo material de tradição dos patriarcas a entrar na consciência israelita global foi provavelmente aquele a respeito de Jacó. Somente Jacó é pressuposto em Dt 26, 5-9; somente ele foi associado a temas posteriores do Pentateuco, ao se tornar o pai dos patriarcas das Doze Tribos, inclusive emigrando com elas para o Egito. Somente por intermédio dele é que os outros patriarcas foram associados com aqueles temas, mercê da associação genealógica iniciada por Jacó e seus filhos. (FOHRER, G. Geschichte, 39 apud SCHNEIDER 2012, 61).
No tocante à questão discutida de como a experiência dos patriarcas com Deus estava relacionada com o culto ao Deus criador EL na terra de cultura Cananeia, para onde migraram os clãs nômades, parece que houve um processo de assimilação ao longo do qual os patriarcas e seus descendentes passaram a cultuar como seu Deus familiar a divindade criadora conhecida em toda Canaã. Abraão se distinguia dos demais habitantes de Haran, por adorar um Deus único, enquanto todos ali eram politeístas.
Na tradição de fé israelita as experiências com Deus narradas nas histórias dos patriarcas são associadas, tanto em termos terminológicos quanto genealógicos, com a fé em Javé do grupo de Moisés. Aparentemente o nome Javé desenvolveu tamanha força integradora pelas memórias históricas a ele associadas, que nele também se puderam inserir as experiências de alguns clãs familiares não sedentários.
Nos tempos atuais temos igualmente que “Os patriarcas [...] foram e serão sempre venerados como santos em todas as tradições litúrgicas da Igreja” (CEC, 61).

Conclusão

Abraão foi o iniciador de um grande povo, de uma grande nação. A promessa a ele feita e o pacto de aliança não se referem apenas a um reino material, mas acima de tudo a um reino espiritual. A aliança de amor entre Deus e os homens, prometida a Abraão e a seus descendentes se estende a todos os povos do mundo[17]. É por isso que Abraão é chamado de pai dos que crêem; por sua experiência de fé, ele é o pai de todos aqueles que crêem e amam a Deus. Por sua fé, Abraão é reconhecido “justo”. Justo é a pessoa que se “ajusta” no projeto de Deus que adere à sua Palavra, porque a fé não é um simples acreditar em “mitos”, histórias ou verdades acerca dos deuses.
As revelações de Deus vieram lentamente, geração após geração. A fé é responder a um chamado pessoal de Deus, uma vocação, porque toda a nossa vida é vocação. A fé é acolher Deus que quer fazer a sua história junto com os homens. É abrir o coração à vontade de Deus. É o relacionamento de amizade com Deus. Este grande legado -- a fé em um Deus único e universal -- nos foi deixado pelos patriarcas Abraão, Isaac, Jacó (Israel) e José, que acreditaram em Deus e a benção de Deus foi-lhes atribuída como justiça.

Referências
BÍBLIA de Jerusalém. SP: Paulus, 2002.
BETTENCOURT, Dom Estevão. Para Entender o Antigo Testamento.  3.ed. RJ: Agir, 1965.
CATECISCIMO DA IGREJA CATÓLICA. SP: Loyola, 2000.
LÓPEZ, Félix Garcia. O Pentateuco: introdução à leitura dos cinco primeiros livros da Bíblia. 2.ed. SP: Ave Maria, 2006.
NOVO DICIONÁRIO DE TEOLOGIA. SP: Paulus, 2009.
SCHNEIDER, Theodor (org.). Manual de Dogmática - Volume I. 4.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.
TRESE, Leo J. A Fé Explicada. 5.ed. SP: Quadrante: 1990.



[1] “Quanto a mim, eis a minha aliança contigo: serás pai de uma multidão de nações; E não mais te chamarás Abrão, mas teu nome será Abrão, pois eu te faço pai de uma multidão de nações” (Gn 17,4-5). Segundo a concepção antiga, o nome de um ser não apenas o designa, mas determina a sua natureza. Mudança de nome marca, pois, mudança de destino. De fato, Abrão e Abraão parecem ser duas formas dialetais do mesmo nome e significar igualmente: “Ele é grande quanto ao seu pai, ele é de nobre linhagem.” Mas Abraão é explicado aqui pela assonância com ab hamôn, “pai de multidão”.
[2] Sara e Sarai são duas formas do mesmo nome, que significa princesa; Sara será, com efeito, mãe de reis.
[3] Gn 15,14.
[4] Gn 17,19.
[5] Gn 21,3.
[6] Gn 22,15-18.
[7] Gn 25,7-11.
[8] Gn 26,3-4.
[9] O Gênesis atribui aos Patriarcas, pastores de rebanhos, a abertura de numerosos poços.
[10] Gn 25,29-34
[11] Gn 27,24
[12] Gn 27,41.
[13] Gn 33,4.
[14] Gn 28,10-22.
[15] Gn 32,23-33.
[16] Gn 50,26.
[17] CEC, 60